A doença que ninguém vê: precisamos falar sobre depressão pós parto!

A depressão pós parto é uma situação clinica grave, pouco diagnosticada e tratada. Ainda considerado um tabu para a sociedade, falar da maternidade real e da infelicidade que pode vir com ela, é algo muito difícil para a mulher, levando a situações de angustia intensa e desvinculação com o bebê.
31 de Outubro de 2017

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Depressão pós-parto não é o fim

 

Muitas mulheres sonham em ser mãe, idealizam cada momento, cada cuidado com seu bebê, a preparação durante a gravidez é emocionante. Todos olham para ela com aquele barrigão e dizem que está linda e plena! Mas, será?! Será que todas estão se sentindo tão confiantes assim? Tão maravilhosas? 

 

Apesar de o nome intitular depressão pós-parto, os sintomas podem começar ainda na gestação, normalmente, de maneira mais leve, mas acabam piorando ao nascer da criança. 

 

Apesar do assunto quase nunca ser abordado, as taxas são altas e as consequências preocupantes. No Brasil, a depressão maior atinge em torno de 2-5% da população geral. 

 

Quando falamos da depressão pós-parto (DPP), os números chegam a 12-19% das gestantes. Contudo, menos de 25% conseguem tratamento e somente 50% são diagnosticadas. Triste, né?!

 

Os sintomas de depressão muitas vezes são confundidos com outra manifestação psíquica comum no puerpério, a tristeza materna ou baby blues. Além disso, a maioria das mulheres tem vergonha de expor seus sentimentos, que são tão contraditórios. E quando expõe, muitas vezes, são minimizados pelos médicos ou pares, com o famoso: “vai passar, é normal!”.

 

Mas, afinal, o que são esses transtornos e como identificá-los?

 

A tristeza materna ou baby blues têm inicio nas duas primeiras semanas após o parto, com incidência de 50-80%, sendo considerada fator de risco para DPP. Ocorre uma labilidade transitória de humor, porém, de remissão espontânea. 

 

A DPP tem duração maior que duas semanas e caracteriza por humor deprimido, anedonia, mudanças significativas de peso ou apetite, insônia ou hipersonia, agitação ou retardo psicomotor, fadiga, sentimentos de inutilidade ou culpa, capacidade diminuída de pensar, de concentrar-se, indecisão, pensamentos recorrentes de morte. 

 

Alguns autores sugerem que, por vezes, os sintomas podem surgir em algum outro momento do primeiro ano de vida do bebê e não necessariamente nas primeiras semanas após nascimento. 

 

Existem fatores de risco que aumentam as chances da mulher ter DPP, entre eles :

  • episódios anteriores de depressão

  • mães adolescentes

  • gravidez de alto risco

  • antecedente de abuso na infância ou na idade adulta

  • falta de rede de apoio

  • mães de prematuros

  • gravidez não planejada

  • adversidades econômicas

  • bebês de temperamento difícil

 

E qual o impacto para o bebê?

 

O recém-nascido não tem a visão e audição desenvolvida, por isso, é considerado sensorial, ou seja, ele entende o que acontece no seu meio pelo toque, tom de voz, contato ocular, posicionamentos. 

Alguns autores mostraram que até mesmo as formas mais brandas de depressão da mãe podem afetar o bebê a medida que ele perceberia as mínimas deficiências na contingência no comportamento materno. 

 

Mães deprimidas, comparadas as não deprimidas, gastam menos tempo olhando, tocando e falando com seus bebês, apresentam mais expressões negativas do que positivas, e mostram menos responsividade as atividades dos seu filhos. 

 

Por sua vez, bebês de mães deprimidas exibem menos afeto positivo, menor nível de atividade, menos vocalização, costumam distanciar o olhar, apresentam mais aborrecimento, protestos mais intensos (choro mais alto), e uma aparência depressiva com poucos meses de idade. 

 

Também foi encontrado impacto no desenvolvimento cognitivo da criança aos 18 meses de idade, com atraso de marcos e fala, além de distúrbios de sono. 

 

Se a DPP vier desde a gravidez, existe uma chance duas vezes maior de nascer prematuro ou baixo peso. 

 

Ou seja, é sim um problema grave, e que deve ser abordado nas consultas de pré-natal, e por todos os profissionais que acompanham a mãe e o bebê.  Do mesmo modo, devemos tirar o tabu e deixar as mães mais livres para falar sobre seus sentimentos. Saber acolher é fundamental! 

 

Se você se identificou com alguma coisa que leu, converse com um profissional que possa lhe ajudar, procure o psicólogo, ou até mesmo o pediatra, e se abra. Por você e por seu bebê!!!

 
 

Fontes:

 

1.Lancet Psychiatry. 2016 October; 3(10) 973-982

 

2.Schwengher & Piccinini. O impacto da depressão pós-parto para a interação mãe-bebê. Est de Psicologia 2003; 8(3): 403-11.

 

3.Ruschi et al. Aspectos epidemiológicos da depressão pós-parto em amostra brasileira. Rev Psiquiatr RS. 2007; 29(3): 274-280