BIRRAS E LIMITES - As relações entre pais e filhos na contemporaneidade

Terrible twos, os “terríveis dois anos”, é um termo que descreve a fase na qual as crianças começam a se reconhecer enquanto indivíduos e, portanto, a contrariar as solicitações dos pais. Isso pode se dar de forma suave ou mais pronunciada. as “birras” são os mais desafiadores para a família.
07 de Mar�o de 2018

   

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   Terrible twos, os “terríveis dois anos”, é um termo que descreve a fase na qual as crianças começam a se reconhecer enquanto indivíduos e, portanto, a contrariar as solicitações dos pais. Isso pode se dar de forma suave ou mais pronunciada, por meio de simples negativas ou de reações mais escandalosas – as “birras” ou “chiliques” são os mais desafiadores para a família.


   Por ser uma fase de transição e também de colocar em prática novas habilidades, surgem vários comportamentos diferentes. Alguns deles são considerados “socialmente inadequados” quando partimos do ponto de vista de um adulto, como, por exemplo, as reações de “birra”, as respostas negativas com a verbalização do “não”, a seletividade alimentar e a oposição quando contrariados. Entretanto, esses comportamentos são naturais para a idade e devem ser encarados como excelentes oportunidades de aprendizado.


   Inicialmente, devemos desconstruir a visão de “mau comportamento”. Os adultos devem tentar compreender a situação do ponto de vista da criança e não se deixar levar pelas emoções negativas quando eles se comportam de forma “inadequada”. 


   A melhor forma de lidar é tentar compreender o que está acontecendo com a criança nessa fase. Isso tranquiliza os pais e pode ajudar a reagir com sabedoria nos momentos mais estressantes. Ao invés de uma grande represália, de ameaças, gritos e brigas, os cuidadores devem adotar uma postura equilibrada, conversando com calma. É importante dizer que entende o que a criança está sentindo e que vai ajudá-la a se acalmar. Mudar o foco de atenção e tentar fornecer opções e exemplos adequados e simples são valiosos para contornar essa situação.


   Devemos economizar no "não" para evitar que a criança fique viciada em dizer sempre essa palavra. Além disso, o cérebro nessa idade compreende mais as frases positivas que as negativas. Usar frases curtas, evitar ameaças que não vão se cumprir, elogiar quando o comportamento está adequado, deixar as rotinas e os combinados claros para as crianças são atitudes que auxiliam muito na prevenção das situações de estresse. Demonstrar que se importa com os sentimentos dela, ter tempo de qualidade e brincar de forma lúdica e prazerosa são essenciais. A maior ferramenta é sempre o afeto.


   O exemplo vale muito mais que as palavras. As crianças que vivenciam a agressão dos pais compreendem que eles reagem com violência quando são contrariados. Portanto, a criança acaba repetindo esse comportamento quando vivencia uma situação de frustração. Além disso, essas atitudes geram medo e podem se tornar tóxicas para o cérebro imaturo de meninos e meninas, resultando em transtornos comportamentais e atrasos no neurodesenvolvimento. Isso não significa que devemos ser permissivos, mas sim que devemos agir de forma coerente e demonstrar com clareza qual o comportamento adequado naquela situação. Ensinar a criança a lidar com a frustração vai repercutir no sucesso dela no futuro.


   Um tapa deixa marcas profundas na personalidade da criança e ajuda a cultivar a cultura da violência no país. A violência diária, estrutural e cultural vai sendo banalizada e se tornando um ciclo vicioso entre gerações. As crianças aprendem com as experiências. Para que elas ouçam os adultos, elas precisam sentir que são ouvidas por eles.


   Todo castigo físico produz uma violência psicológica ao trazer o medo, a dicotomia entre amor e raiva em relação a quem amamos e devia nos proteger. Mais grave ainda é o fato de que quando uma criança apanha, ela aprende a bater, pois acaba interiorizando a ideia de que violência é uma maneira aceitável de resolver conflitos e diferenças. Essa prática indica que quando perdemos nosso poder de argumentação, é possível recorrer à força física, ou o poder do mais forte sobre o mais fraco, que é a relação do adulto sobre a criança.


   Diversas pesquisas já comprovaram que o uso de punições corporais torna a criança ou o adolescente mais suscetível à rebeldia, ao sentimento de vingança, à prática de delitos e ao bullying. Além disso, a criança que só recebe punições negativas não aprende a ter autodisciplina; a punição é uma motivação externa e a autodisciplina é uma motivação interna.


   Um estudo feito por cientistas americanos e publicado no Journal Family Psychology destaca que quanto mais a criança apanha, maior a probabilidade de ela se rebelar contra os pais no futuro. A conclusão é consequência de 50 anos de pesquisa, que averiguou o comportamento de mais de 160 mil crianças e adolescentes.


   Outro estudo – esse desenvolvido na Universidade de Hampshire, nos Estados Unidos – aponta que crianças que sofriam castigos físicos apresentaram, após quatro anos, um coeficiente intelectual mais baixo em relação aos meninos e meninas que não passaram por esse tipo de punição.


   Em vez de recorrer à violência física, que além de traumatizar a criança ainda se mostra ineficaz no quesito disciplina, os pais podem investir em outros meios para corrigir a criança. O diálogo franco e firme é o primeiro passo nesse longo caminho da educação, além da apresentação de lições básicas do que é certo e errado. Os pais também devem ensinar a criança a pedir desculpas, reparar os danos causados e reconhecer seus erros.


   Outra técnica apontada como medida alternativa e construtiva ao uso dos castigos físicos é a suspensão de privilégios. A técnica pode ensinar a criança a pensar nos prós e contras de obedecer ou transgredir as regras básicas. Essa estratégia surte mais efeito se não são impostas de forma arbitrária e sejam coerentes.


   A Lei Menino Bernardo, que estabelece que crianças e adolescentes têm direito de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos cruéis ou degradantes, irá completar 4 anos. O nome da lei faz uma homenagem ao menino Bernardo Boldrini, de 11 anos, morto em abril de 2014. O pai e a madrasta do garoto, com ajuda de uma amiga e do irmão dela, são acusados da morte.


   Por volta dos 3 anos, na maioria dos casos, as crises de birra diminuem bastante. Essa fase, no entanto, não deve ser encarada como “terrível”, mas sim como uma rica oportunidade de aprendizado para que a criança se torne um adulto saudável emocionalmente. Para os pais, também é um momento oportuno para a aquisição de maior autocontrole e de aperfeiçoamento pessoal. O bom exemplo dos cuidadores e a condução da criança pelo caminho do sucesso por meio do afeto deve se prolongar por todos os anos da infância e adolescência.

Referências:

 

- Sociedade Brasileira de Pediatria